Tentação do dízimo


Texto em ainda não revisado. Francisco Alves

1 – Introdução

No número 932 da revista “Portugal Evangélico” das Igrejas Metodista e Presbiteriana de Portugal, foram publicados vários artigos sobre a contribuição cristã, apresentando várias opiniões sobre o assunto que começamos por divulgar:

1.1 – O dízimoDe autoria do Pastor Brissos Lino, da Igreja do Jubileu de Setúbal

“A última parte da pessoa que se converte a Deus é a carteira”. Esta conhecida expressão simboliza a dificuldade que alguns cristãos têm em lidar com as suas finanças no reino de Deus.

O dízimo é prática corrente na generalidade das igrejas evangélicas, e fundamenta-se em razões bíblicas, teológicas e de carácter prático.

Bases bíblicas

O dízimo era observado entre os povos antigos, existiu antes da lei de Moisés (Abraão e Jacob), foi estabelecido e confirmado na Lei, mas também ao longo de todo o Antigo Testamento foi praticado, como no tempo de Amós 4:4, no reinado de Ezequias II Crónicas 31:2/5, nos dias de Neemias. Neemias 10:37/38; Neemias 12:44; Neemias 13:5/12, e com Malaquias 3:8/10.

No Novo Testamento, Jesus aprovou a prática do Dízimo, tanto na forma expressa Mateus 23:23, como tácita Lucas 11:42; Lucas 18:12. O dízimo é também legitimado pelo autor da Carta aos Hebreus, que apresenta duas ordens de sacerdócio, a de Levi e a de Melquisedeque, Levi recebeu dízimos do povo, de acordo com a lei de Moisés, e Melquisedeque recebeu-os de Abraão, em tempos anteriores à Lei. Se o dízimo como instituição não se inicia com a lei, mas lhe é anterior, também não termina com a vigência dela. Sendo Melquisedeque o símbolo do sacerdócio eterno de Cristo, e tendo recebido dízimos, faz sentido que a igreja os receba.

O apóstolo Paulo também faz referência implícita em I Coríntios 9:13/14

Princípios do reino

Muitos dos princípios do reino de Deus são opostos aos princípios e valores do mundo. Se tenho dez e dou cinco, restam-me cinco. Mas a matemática do reino é diferente. Quando se dá a Deus Ele age sobrenaturalmente de modo a que nunca nada nos falte, Com Deus o menos torna-se mais, e sem Deus acontece o contrário.

O cristão sabe que nada é dele, tudo pertence a Deus. Sendo assim, o dízimo funciona como prova de fé. Quando devolvemos a Deus dez por cento do que dele recebemos estamos a colocá-lo à prova. Foi Ele que disse: “Fazei prova de mim”. Este é o único momento em que temos o direito de colocar Deus à prova.

Responsabilidade dos membros

A igreja é o conjunto dos fiéis, não o edifício. A responsabilidade pelo sustento da obra do Senhor pertence aos membros de cada igreja local. A prática do dízimo, além das ofertas alçadas, está relacionada com a necessidade de suprir as necessidades financeiras da casa de Deus. Contribuir para o sustento do centro de adoração é mais do que um dever do cristão, é um verdadeiro privilégio, pois torna os fiéis participantes da Obra, verdadeiros cooperadores de Deus.

A lei da sementeira e da colheita

Se alguém quer ser abençoado na sua vida financeira tem que semear no reino. Se semear amor colhe amor, se semear perdão, colhe perdão, se semear finanças colhe finanças. Ninguém colhe batatas se semear cebolas. Colhemos da mesma espécie que semeamos. Mas este princípio não funciona apenas no tocante à qualidade da semente, mas também à quantidade. Quem semeia muito colherá muito, quem semeia pouco, pouco há de colher.

Por muitas dificuldades que o agricultor passe não cairá no erro grosseiro de comer as sementes. Ele sabe que precisa delas para as lançar à terra, pois são a garantia de que virá a colher, no seu tempo, o que semear.

Mas é exactamente isto que acontece a muitos cristãos. Em vez de semear a semente que Deus lhes coloca na mão, comem-na… Quando chega a hora da sementeira não há semente para lançar à terra. E não havendo semente não haverá colheita. Pense nisso.

1.2 – Dízimo, preceito cristão? De autoria do Pastor Alderi Souza de Matos, Doutor em história da igreja pela Universidade de Boston.

A prática do dízimo é um tema controverso nas igrejas evangélicas, tendo, de um lado, defensores apaixonados e, do outro, críticos ardorosos. Para alguns, é uma espécie de legalismo judaico preservado na igreja cristã. Para outros, trata-se de uma norma divina que tem valor permanente para o povo de Deus, na antiga e na nova dispensação. Os críticos do dízimo afirmam que a sua obrigatoriedade é contrária ao espírito do evangelho, pois Cristo liberta as pessoas das imposições da lei. Os defensores alegam que essa posição é interesseira, porque permite às pessoas eximirem-se da responsabilidade de sustentar generosamente a igreja e as suas actividades. O grande desafio nesta área é encontrar o equilíbrio entre estas posições divergentes. O que está em jogo é uma questão mais ampla – o conceito da mordomia cristã, do uso que os cristãos fazem dos seus recursos e bens.

Os dados bíblicos

O dízimo (do latim decimu) pode ser definido como a prática de dar a décima parte de todos os frutos e rendimentos para o sustento das instituições religiosas e dos seus ministros. Trata-se de um costume antigo e generalizado, sendo encontrado tanto no judaísmo como nas culturas vizinhas do Oriente Médio. Esta prática é claramente estabelecida no Antigo Testamento, sendo até mesmo anterior à lei de Moisés Génesis 14:20; Génesis 28:22. O dízimo era devido primariamente a Deus, como expressão de gratidão pelas suas bênçãos e como sinal de consagração. Mais tarde, tornou-se um preceito formal na vida religiosa dos hebreus Levítico 27:30/32, sendo destinado especificamente para o sustento dos levitas Números 18:21/24.

No Deuteronómio, está associado a uma refeição comunitária festiva e ao auxílio aos necessitados Deuteronómio 12:17/19; Deuteronómio 14:22/29; Deuteronómio 26:12/14. Às vezes era dado liberalmente II Crónicas 31:5/6; Neemias 10:37/39; Neemias 12:44 noutras ocasiões retido, fraudulentamente Miqueias 3:8/10.

Nos escritos do Novo Testamento, o dizimo é mencionado explicitamente apenas nos Evangelhos e na epístola aos Hebreus, sempre em relação aos judeus. Jesus aprovou a prática, mas censurou-a quando se tornava uma expressão de frio legalismo Mateus 23:23; Lucas 11:42; Lucas 18:12; ver Amós 4:4. Em Hebreus, é mencionado em conexão com Melquisedeque, uma figura do sacerdócio de Cristo Hebreus 7:1/10. As epístolas Paulinas falam muito sobre ofertas para a comunidade, mas a sua ênfase maior é sobre as contribuições voluntárias II Coríntios 9:6/7. O Novo Testamento não fornece muitas informações sobre o sustento do trabalho regular da igreja. Todavia, as informações disponíveis destacam atitudes como gratidão, fé, amor e generosidade como motivações centrais da mordomia cristã.

O dízimo na história

No início da igreja, a informalidade e a simplicidade das estruturas não exigiam muitos recursos para a sua manutenção. Não havia templos nem ministério a tempo integral (muitos líderes eram “fazedores de tendas”, como Paulo). A maior carência estava na área social ou beneficente. Daí a grande ênfase nas ofertas, principalmente em situações de particular necessidade (ver I Coríntios 16:1/4; II Coríntios 8:1/24 e II Coríntios 9:1/15). No entanto, o princípio de que a contribuição devia ser marcada pelo desprendimento e liberalidade manteve-se, como se pode ver na Didaquê, um manual eclesiástico do 2° século: “Tome uma parte do seu dinheiro, da sua roupa e de todas as suas posses, segundo lhe parecer oportuno, e os dê conforme o preceito” (13.7). No final do mesmo século, Ireneu de Lyon referiu-se aos cristãos como aqueles que “separam todas as suas posses para os propósitos do Senhor, entregando de modo alegre e espontâneo as porções não menos valiosas da sua propriedade” (Contra as heresias IVI8).

Com o passar do tempo e a crescente institucionalização da igreja, houve a necessidade de uma forma padronizada de contribuição. Assim, recorreu-se ao precedente bíblico já conhecido e testado durante muito tempo – o dízimo. Ao longo dos séculos, ele tornou-se obrigatório – uma espécie de imposto eclesiástico – e na época de Carlos Magno passou a integrar a lei civil.

No final da Idade Média surgiram abusos quando os dízimos, em certos casos, se tornaram um instrumento para a compra de cargos eclesiásticos (simonia). Houve controvérsias quando as pessoas procuravam fugir ao pagamento dos dízimos enquanto outras tentavam apropriar-se desses rendimentos para si mesmas. Os países que tinham igrejas estatais recolhiam os dízimos dos fiéis em troca do sustento da igreja e do pagamento dos salários dos ministros (côngrua). No Brasil colonial, em virtude do sistema conhecido como “padroado”, o dízimo tornou-se o principal tributo arrecadado pelo estado português.

Validade actual

A questão que se coloca é a seguinte – o dízimo é valido hoje em dia para os cristãos? É uma forma legítima de contribuição cristã? São muitos os factores a serem considerados na procura de uma resposta. Em primeiro lugar, é preciso atentar para o ensino bíblico global sobre o lugar que os bens devem ter na vida do crente. Deus é o senhor e proprietário supremo de todas as coisas. Os seres humanos são mordomos, ou seja, administradores dos recursos e dádivas de Deus. Aqueles que realmente o amam, que são gratos pelas suas bênçãos e querem servi-lo, sentir-se-ão movidos intimamente a contribuir para causas que engrandecem o seu nome.

A segunda consideração é pragmática. A igreja é uma associação voluntária. Ela não tem outra fonte estável de sustento a não ser as contribuições dos seus membros. As ofertas ocasionais são, comprovadamente, insuficientes para atender a todas as necessidades financeiras da comunidade cristã. Torna-se necessário um método de contribuição que seja regular, generoso e proporcional aos recursos dos fiéis.

Outro argumento baseia-se numa comparação entre Israel e a igreja. Os cristãos entendem que têm recebido bênçãos muito maiores que a antiga nação judaica. O que para esta estava na forma de promessas, para os cristãos são realidades concretas, presentes.

A vinda do Messias, a sua obra de redenção, os seus ensinos e dos seus apóstolos (o Novo Testamento), a dádiva do Espírito Santo e a revelação mais plena da vida futura são exemplos desses grandes benefícios usufruídos plenamente na nova aliança. Daí, decorre o seguinte raciocínio: se Deus prescreveu o dízimo para o antigo povo de Israel, seria de se esperar que ele requeresse menos dos cristãos, detentores de maiores dádivas? Portanto, muitos estudiosos concluem que o dízimo deve ser, não o teto da contribuição cristã, mas o piso, o mínimo, o ponto de partida.

Conclusão

A questão do dízimo é tão difícil para muitos cristãos porque toca numa parte sensível da sua vida – o bolso. Parece excessivo entregar um décimo dos rendimentos a Deus, para a causa de Cristo. Nem todos têm o desprendimento e a generosidade da pobre viúva elogiada por Jesus Mateus 12:41/44 Todavia, o dízimo pode ser uma bênção na experiência do cristão em dois sentidos. Primeiro, como um desafio para a sua vida espiritual. Dar o dízimo pressupõe uma relação de amor, gratidão e compromisso com Deus e com as pessoas que serão beneficiadas com essa contribuição. Em segundo lugar, é também um desafio para a melhor administração da vida financeira. Muitas pessoas têm dificuldade em contribuir para a igreja e suas causas porque são financeiramente desorganizadas, gastam mais do que podem, não têm sentido de prioridades. A prática do dízimo produz uma disciplina que beneficia outras áreas da vida. Para aqueles que querem trilhar este caminho, a sugestão é que comecem a aumentar gradativamente a sua contribuição, até atingir o padrão do Antigo Testamento… e então ir além dele.

1.3 – Dar a Deus o que é de Deus… De autoria da Pastora Eva Michel

Para ser franca desde o início: eu não gosto de falar de dinheiro. Nem de lidar com ele… Fazer compras num centro comercial não me traz prazer por aí fora, ir ao banco ainda menos e preparar relatórios financeiros, nem falar. Claro, reconheço a importância do dinheiro, tanto na vida de cada um como na vida da igreja, mas, digamos, procuro não lhe dar mais atenção do que a absolutamente indispensável e  – modéstia completamente à parte – julgo que Jesus não terá agido de maneira muito diferente, nesta matéria. Ou estarei enganada?

Certo: Jesus e os doze lidaram com dinheiro – caso contrário, nem os discípulos iam sugerir comprar pão para a multidão Marcos 6:37, nem seria preciso um administrador da caixa comum João 12:6. Caixa esta que pressupõe ter havido quem para ela contribuía. Mais: parábolas como a dos talentos, a do servo endividado, a dos trabalhadores na vinha Mateus 25:14 ss.; Mateus 18:23 ss.; Mateus 20:1 ss. mostram que a realidade económica não está ausente da Bíblia e pode mesmo servir de imagem para o Reino de Deus.

Mas depois, há o outro lado da história! Fico pasmada ao dar-me conta de como o dinheiro (muito dinheiro!) entra para financiar uma campanha de “desinformação” acerca da Páscoa: os guardas do túmulo de Jesus subornados para… divulgarem que o corpo de Jesus terá sido roubado enquanto eles dormitavam! Dinheiro, usado para deturpar, para eliminara mensagem da Vida, da Ressurreição! Assim, no evangelho de Mateus 28:11 ss.

Será uma passagem excepcional? De modo algum, como mostra até uma leitura superficial deste mesmo evangelho: os discípulos não devem levar dinheiro para o seu caminho, sublinha Mateus 10:9, o apego aos bens impede o jovem rico de seguir Jesus Mateus 19:16 ss, Judas trai o Mestre por 30 moedas. Mateus 26:15. Quando uma mulher unge Jesus com um óleo muito caro, este critica os que não conseguem apreciar o profundo significado do gesto, lembrando-se apenas do dinheiro. Sem dúvida: ao longo de todo o seu evangelho, Mateus alerta-nos para o risco que correm os que não conseguem desprender-se do dinheiro – ou da sua preocupação com o dinheiro. E resume: não se pode servir a Deus e a Mamon (termo aramaico para designar a riqueza) Mateus 6:24 ao mesmo tempo.

Costuma citar-se, neste contexto, a orientação de Jesus: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” Mateus 22:21, avançando-se depois, quase irremediavelmente, ou para um apelo aos deveres cívicos dos cristãos (pagar os impostos) ou para sugerir que aumentem as suas contribuições para a igreja.

Suspeito, porém, que as palavras de Jesus nos levem bem mais longe. Vivemos hoje numa sociedade, num mundo em que, como nunca antes, tudo é transformado em mercadoria, com consequências escandalosas: milhões sem água potável por não poderem pagá-la; pessoas, inclusive entre os membros da nossa igreja, a terem de escolher entre comer ou ir ao médico pois a reforma não chega para ambos; dividendos chorudos para os accionistas de empresas que atingem lucros como nunca antes visto, depois de terem mandando para o desemprego milhares dos seus trabalhadores. Nunca antes a distribuição das riquezas neste mundo foi de tão extrema desigualdade. Até a vida (animais, plantas e inclusive partes do corpo humano) está a ser patenteada e, deste modo, sujeita à comercialização.

Confrontado com esta realidade, como reagiria Jesus? Poderia ficar ele calado?

Dar a Deus o que é de Deus: não significa isto empenharmo-nos com tudo o que somos e tudo o que temos para que este escândalo acabe? Hoje a questão não se coloca entre dar a César ou dar a Deus, parece-me, hoje o profundo, o imenso desafio é darmos a Deus o que é dele, em vez de nos agarrarmos àquilo que consideramos “nosso”.

Um dia Jesus chama a atenção dos discípulos para uma viúva pobre que coloca os seus tostões no ofertório Marcos 12:41/44 Que profundo carinho para esta mulher simples e sem nome, transparece das palavras de Jesus! Muito do dinheiro que a nossa igreja recebe é oferecido por pessoas como esta viúva e com a mesma dedicação. Sinto que esta realidade coloca uma enorme responsabilidade sobre os ombros das mulheres e dos homens que administram o dinheiro da igreja e o aplicam ao seu trabalho. Sempre que gastarmos dinheiro da igreja, recordemo-nos, com o mesmo afecto com que Jesus olhou a viúva, daqueles que o ofereceram.

Dito tudo isto, reconheço que talvez deva corrigir a minha observação inicial: afinal, o dinheiro não é de todo um tema neutro e irrelevante para Jesus e, portanto, para a nossa fé e a nossa vida como igreja. Quando Jesus entra na cidade e vê Zaqueu sentado na árvore, observando tudo à distância sem querer envolver-se demasiado – numa atitude consumista, diríamos hoje! – Jesus vai ter com ele. “Hoje preciso de comer em tua casa!”. Mais uma história sobre o dinheiro. E sobre uma conversão que abre caminhos para a vida e para o futuro: a Zaqueu, a nós, à igreja.

1.4 – A Igreja e o dinheiro: Fundamentos bíblicos De autoria do Pastor Manuel Pedro Cardoso

Para sabermos como deve situar-se a Igreja em relação ao dinheiro, sublinhemos desde logo o ensino de que a Igreja é o Corpo de Cristo I Coríntios 12:27 e o seu modo de pensar e agir têm de ser determinados pelo modo de pensar e agir do Senhor, conforme nos é revelado nas Escrituras. Falar da atitude que a Igreja ou os cristãos individualmente devem ter em relação ao dinheiro é falar da atitude que Cristo tem nos Evangelhos em relação ao mesmo assunto, porque ser Igreja de Cristo é ser o povo que segue a Cristo João 10:4 e João 10:27, implicando o seguimento a ideia da imitação I Coríntios 11:1; Efésios 5:1; Filipenses 2:5. Ora, as Escrituras falam-nos do Cristo que nasceu e viveu pobre, que anunciou o Evangelho aos pobres Mateus 11:5, e proclamou a pobreza como bem-aventurança Mateus 5:3; Lucas 6:26. O leitor da Bíblia não tem dificuldade em perceber que estava certa a Teologia da Libertação quando falava da “opção de Cristo pelos pobres” e da consequente necessidade de que a Igreja não seja apenas uma Igreja com os pobres ou para os pobres, mas de ser a Igreja pobre e dos pobres.

O dinheiro é necessário

O dinheiro é uma invenção inteligente do homem para a organização das sociedades e em princípio não há nenhum erro em utilizá-lo. O que é condenado é o “amor do dinheiro”, a ganância, I Pedro 5:2; I Timóteo 6:10, não o dinheiro em si mesmo. Até no grupo inicial formado por Jesus e seus apóstolos houve necessidade de usar dinheiro João 12:6, certamente obtido através de ofertas. A Igreja primitiva de Jerusalém é descrita como uma comunidade que conheceu a necessidade de fazer dinheiro com a venda de “propriedades e fazendas” para socorrer os mais necessitados Actos 2:45; Actos 6:7. E quando os problemas materiais da Igreja de Jerusalém aumentaram com a fome que sobreveio, o apóstolo Paulo levantou entre os cristãos da Ásia Menor uma colecta a favor dos santos de Jerusalém I Coríntios 16:1 ss, usando-se aqui santos no sentido de “cristãos”, “membros da comunidade”, mas obviamente era a “santos” pobres que o dinheiro se destinava, e pobres eram nessa altura, muito provavelmente, a quase totalidade dos cristãos, incluindo os apóstolos. Por esses dias Pedro disse a um coxo mendigo: Não tenho prata nem ouro Actos 3:6. Uma Igreja pobre diante do homem pobre, numa perspectiva do nosso tempo da economia de especulação financeira em que a falta de dinheiro é vista como a impossibilidade de agir, o que não aconteceria se a Igreja, como Pedro, não tivesse prata nem ouro mas tivesse a força para dizer ao que coxeia Levanta-te e anda! – e não forçosamente ao coxo fisicamente mas ao homem que caminha inseguro e sem esperança na estrada da vida.

Embaixadores do Crucificado

Cada cristão, a Igreja como um povo, devem ter bem presente que o dinheiro que têm está sob esta palavra vinda pelo profeta Ageu: Minha é a prata, e meu é o ouro, disse o Senhor dos Exércitos. Ageu 2:8 O modo como usamos o dinheiro que chega a nós tem de ter em conta que não somos, Igreja e crente, senão mordomos, responsabilizados pelo património d’Aquele a Quem tudo pertence Salmo 24:1. O Senhor não se deleita com sacrifícios nem holocaustos mas quer que andemos de coração quebrantado e contrito e que pratiquemos a justiça Salmo 51:16; Amós 5:24. Nesta perspectiva, percebe-se, por exemplo, que não se trata de o cristão contribuir com dez por cento dos seus proventos para a sua Igreja (prática do Antigo Testamento), mas de se oferecer a si mesmo, oferecer tudo quanto tem e é. Mas isto implica também, naturalmente, que as Igrejas devem ser altamente responsáveis no modo como administram a “prata e o ouro” que lhes é entregue. Tem sido escandaloso saber pelos meios de comunicação como Igrejas modernas espoliam ingénuos com dízimos e ofertas generosas para que os seus pastores vivam em casas ricas, transportando-se em carros de luxo e usufruindo salários de executivos. O chefe de uma Igreja desse tipo apresentou-se para dirigir num culto vestindo um fato caríssimo, de alta marca. Como alguém manifestasse surpresa, explicou: “Não se admirem de me verem vestido como uma alta personalidade, pois eu sou um embaixador do Deus Todo-Poderoso!”. O problema é que o Senhor Todo-Poderoso veio a nós num homem comum, pobre e fraco, que disse: Qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos. Marcos 10:44/45. É de Cristo crucificado que os cristãos são embaixadores Efésios 6:20. E é só nessa perspectiva que a Igreja e os cristãos podem ser luz num mundo em que Mamon é senhor.

1.5 – Mordomia – Um desafio para as igrejas do sul da Europa

De autoria de Joel Cortés – Presidente da Comissão Executiva da Igreja Evangélica Espanhola

Não e a minha intenção fazer teoria sobre um tema que me manteve ocupado mais de 20 anos ao serviço da igreja, acho que pode ser mais interessante falar a partir das realidades vividas e especialmente dos desafios que devemos afrontar nas nossas igrejas a sul da Europa a partir do abandono da condição de igrejas “tuteladas economicamente” pelas igrejas irmãs da Europa central durante muitos anos.

São muitas as coisas que necessitamos rever, assinalarei apenas três que me parecem mais importantes.

– Aproveitamento dos nossos recursos humanos e materiais.

– Revisão da nossa implantação em todos os lugares e a procura activa de uma maior colaboração entre as comunidades, chegando se necessário a uniões físicas, a acordos ou a uma união de acções e serviços.

– Reflectir profundamente sobre a Mordomia Cristã, não somente no sentido tradicional marcado peio carácter económico, mas também o compromisso de tempo, de entrega absoluta que nos exige o cumprimento da Missão.

É evidente que toda a transformação deve efectuar-se a partir de uma rigorosa análise da realidade, a visão de uma situação não proporciona os dados actualizados, é preciso efectuar uma análise da nossa evolução tentando também projectar no futuro o devir da igreja no seu conjunto (Igrejas, Missões e Obras Sociais).

Aproveitamento dos recursos humanos e materiais existentes

É preciso partir da constatação de que a estrutura das igrejas minoritárias, que surgiram e cresceram num contexto hostil, foi viabilizada economicamente com a ajuda de outras igrejas que desde o princípio e durante muitos anos contribuíram de forma muito significativa numa perspectiva de missão, Com o passar do tempo estas alcançaram um estatuto de Igrejas independentes, no seu aspecto organizacional e eclesiológico, sem no entanto eliminar a dependência de carácter económico.

Entre outros aspectos, a Igreja não desenvolveu uma lógica de aproveitamento do património de que dispomos, e é preciso reconhecer que tudo está, única e exclusivamente, ao serviço da sua missão como Igreja. Esta não tem ambições materiais, nem de acumulação de poder ou riqueza, deve perseguir a utopia de dispor dos meios estritamente necessários para o cumprimento dos seus fins. Devemos reconhecer que a nossa situação actual dista muito desta utopia, possuímos muitos templos com muitas possibilidades mas que são pouco utilizados, nalguns casos por terem espaços demasiados grandes em relação à actividade e membros das comunidades locais, que se traduz numas poucas de horas de utilização semanal efectiva. Uma das tarefas que devemos impulsionar é a revisão em profundidade do conceito de propriedade e do seu uso.

Outro elemento de vital importância assenta no aproveitamento dos recursos humanos. A existência de um bom número de comunidades, com um reduzido número de membros, atendidas por um pastor a tempo inteiro não é sustentável a partir de qualquer ponto de vista. Pensamos sempre em razões económicas que, evidentemente existem e condicionam as possibilidades, mas para além destas poderíamos invocar razões ainda mais transcendentes e a mais importante é o reconhecimento do direito e da obrigatoriedade de todo o Ministro a ocupar-se plenamente na sua missão. É certo que, no inicio, o trabalho não é directamente proporcional ao tamanho das congregações mas é evidente que, a longo prazo, se não brotarem frutos tudo resulta numa acomodação à realidade envolvente, criando-se sinergias negativas entre pastor e comunidade.

Não queremos renunciar a projectos de missão que sempre exigem que os meios estejam na frente das necessidades, é o “trigo de semente” que toda a Igreja deve semear, mas há um tempo para cada coisa e acontece que, por vezes, se não há fidelidade aos planos originais, um projecto de missão se converte num projecto de instalação.

Não queremos deixar desatendidas as congregações mais pequenas e, portanto, com menos recursos, contudo devemos procurar novas fórmulas para evitar que este fenómeno não se dê na Igreja com tanta profusão. A procura de pastores que possam compatibilizar a sua função pastoral com um emprego secular e o programa de formação de leigos podem permitir dispor, no futuro, de recursos que respondam ao princípio de sustentabilidade.

As comunidades e a sua implantação

Este enunciado muito sintético pretende abordar a situação estratégica de muitas das nossas comunidades, particularmente em lugares em que as distâncias são muito reduzidas, com algumas excepções, refiro-me a Madrid e Barcelona. Em ambas as cidades mas sobretudo em Barcelona, convivem comunidades com um tamanho notável em relação à média nacional, com comunidades com um tamanho muito reduzido que apesar da nossa estrutura sinodal e solidária tem frequentemente sérias dificuldades para conseguir os recursos necessários para a sua atenção pastoral, para cobrir os custos correntes (mantimento de edifícios, etc.).

Uma das tarefas a levar por diante é efectuar uma revisão em profundidade dos vínculos de trabalho entre igrejas, num leque de medidas que podem ir desde a partilha de pastores, a acordos de unidade de acção que resultem em programas comuns e Conselhos comuns, até à plena união das comunidades.

Isto não quer dizer que uma possível união das comunidades signifique abandonar definitivamente os lugares de culto e zonas geográficas da cidade, pode continuar a ser um terreno de missão e podem organizar-se actividades (cultos, acções de evangelização, actividades culturais, obras sociais, etc.) que garantam a presença da Igreja. Não consideramos imprescindível o mantimento das propriedades tal como estão. Será também necessário desenvolver políticas criativas que nos permitam adequar os meios aos fins em cada momento.

Neste sentido é importante para a Comissão Executiva o desenvolvimento do “Programa de Evangelização” que definimos já há alguns anos. Tomando como base uma comunidade pequena a ideia é desenvolver um programa de crescimento, dotando-o de um Pastor ou Pastora com uma reconhecida capacidade para o trabalho de missão e evangelização para que, esta experiência, a partir de um trabalho sério e rigoroso, seja um exemplo a ser retomado noutras comunidades.

Revisão da Mordomia Cristã

A constatação de que temos um grave problema de aproveitamento dos recursos obriga-nos a convidar toda a Igreja a rever a sua praxis à luz da Palavra, da História e da Teologia e somente assim seremos capazes de identificar as nossas carências, o que nos falta para alcançar uma administração responsável dos bens da Igreja. A percepção, muito estendida, de que se não alcançávamos os nossos objectivos (especialmente os económicos), outros se encarregavam de os resolver, cremos sinceramente que chegou ao fim.

Um dos aspectos que é necessário assinalar é a percepção de que existe no seio da Igreja um corte generacional em relação a importância da mordomia, os membros de mais idade tem um sentido de responsabilidade maior em relação às novas gerações. A manifestação deste fenómeno estende-se ao assumir de ministérios no seio da Igreja, seja em relação a novas vocações no campo da pregação ou para assumir responsabilidades na direcção das comunidades.

Iniciámos um movimento, um processo de revisão da nossa realidade actual. E este é o início do um caminho que dê à nossa igreja centenária um novo impulso, uma nova maneira de encarar o testemunho. Frequentemente esquecemos que a Igreja Evangélica Espanhola é reconhecida em muitos âmbitos externos como portadora de grandes valores derivados das suas raízes eclesiológicas e teológicas, da sua abertura, profundamente ecuménica, democrática e solidária. A nossa influência no panorama protestante espanhol não assenta em critérios quantitativos, do número de membros ou de comunidades é na realidade muito maior. Devemos sentir-nos orgulhosos disso mas sobretudo devemos comprometer-nos até ao final com a herança que recebemos daqueles que nos precederam.

O que interessa é que eu chegue ao fim da minha carreira e cumpra o encargo que o Senhor Jesus me deu, de pregar a Boa Nova do amor de Deus. Actos 20:24

2 – Tentação do dízimo no protestantismo histórico (CC)

Li os artigos sobre mordomia incluindo a contribuição monetária publicados no número 932 do “Portugal Evangélico” (Março de 2009) e quero felicitar a redacção da revista por esta iniciativa, pois trata-se dum assunto que muito poucas vezes é abordado pelos pastores das igrejas do protestantismo histórico.

Embora os artigos publicados nesta revista das igrejas Metodista e Presbiteriana de Portugal possam ser livremente transcritos, desde que mencionada a sua fonte, quero agradecer a amável autorização que me foi concedida para transcrever os artigos na minha página na internet ao abordar um assunto de tanta importância para as igrejas do protestantismo histórico em Portugal.

Atendendo ao grande número de visitantes do Brasil que entram na minha página, peço ao Senhor que estas reflexões possam levantar a mesma questão nas igrejas do protestantismo histórico no Brasil.

2.1 – Artigo “O Dízimo”, do Pastor Brissos Lino, da Igreja do Jubileu de Setúbal

Começa por afirmar que o dízimo é prática corrente das igrejas evangélicas, o que suponho ser quase verdade nos EUA e no Brasil, mas não nas igrejas do Protestantismo Histórico na Europa. Digo quase verdade, pois no Brasil há igrejas do protestantismo histórico e até igrejas evangélicas que se mantêm fiéis ao Evangelho da Graça e não aceitam a obrigatoriedade do dízimo.

Admira-me a afirmação de que o dízimo era observado entre os povos antigos, como justificação para a doutrina da obrigatoriedade do dízimo para os cristãos, pois muitas vezes tenho ouvido sérias críticas à Igreja Católica e acusações de ter sofrido influência do paganismo, incorporando na sua teologia alguns dos desses antigos conceitos, que já existiam antes de Moisés. Será que neste caso a tal influência do paganismo já é tolerável se forem igrejas evangélicas?

O argumento de que o dízimo não foi revogado por ser anterior à Lei de Moisés, parece-me extremamente perigoso, pois o mesmo argumento também poderia ser aplicado à escravatura, pena de morte, forte discriminação da mulher e muitas outras atitudes que também eram observadas entre os povos antigos e mais tarde foram integradas na Lei de Moisés.

Se o dízimo que Abraão deu a Melquisedeque é um exemplo para os cristãos, então esperemos que estes tenham algum despojo duma guerra para entregar um décimo à igreja, só uma vez na vida, pois não nos consta que Abraão tenha tirado um décimo dos seus rebanhos ou de outros dos seus bens pessoais, nem que voltasse todos os meses ou todos os anos para entregar o dízimo a Melquisedeque.

Discordo da afirmação de que A igreja é o conjunto dos fiéis, e não o edifício, afirmação que parece estar na moda entre certos pastores. O simples facto do significado etimológico da palavra ser um conjunto de pessoas (não necessariamente crentes), não permite limitar o significado da palavra só a esse caso, nem nos impede que possamos chamar igreja ao edifício. Sobre o assunto, aconselho a ler o meu artigo Igreja ou templo da rua tal… (CC)

Ao ler a afirmação de que Contribuir para o sustento do centro de adoração é mais do que um dever do cristão, é um verdadeiro privilégio, pois torna os fiéis participantes da Obra, verdadeiros cooperadores de Deus, não posso deixar de lamentar como tais igrejas estão longe do verdadeiro cristianismo. Segundo Jesus afirmou em Mateus 7:15/23, há lobos ferozes que se apresentam como pastores, mas é pelos seus frutos que os podemos distinguir.

Infelizmente é esta a mentalidade da maioria das igrejas evangélicas dos nossos dias em que nalguns países há milhares que morrem à fome, enquanto essas igrejas só estão preocupados com a construção de centros de adoração, igrejas (edifícios) e sustento pastoral, que ele não mencionou. A ajuda aos necessitados da grande maioria das igrejas evangélicas é uma percentagem insignificante a comparar com as verbas destinadas ao sustento pastoral e construção de templos.

Há páginas da internet, como por exemplo http://www.noticiascristas.com/2009/03/curso-ensina-pastor-ser-empresario-da.html que ensinam pastores a ser “Empresários da Fé” e divulgam algumas das frases feitas e argumentos utilizados neste artigo do Pastor Brissos Lino. Aconselho a leitura dos outros artigos desta minha página da internet, na secção Temas polémicos, onde este assunto da obrigatoriedade do dízimo nos nossos dias é apresentado com maior desenvolvimento, em vários artigos de vários autores.

2.2Artigo Dízimo, preceito cristão? De autoria do Pastor Alderi Souza de Matos, Doutor em história da Igreja pela Universidade de Boston.

Embora discorde da conclusão final deste autor, penso que é um estudo sério e começa por afirmar que: A prática do dízimo é um tema controverso nas igrejas evangélicas, tendo, de um lado, defensores apaixonados e, do outro, críticos ardorosos. O que vem contrariar a afirmação que encontramos no primeiro artigo que transcrevemos

Quero realçar as seguintes afirmações deste artigo, a que dou o meu acordo:

O dízimo previsto no Antigo Testamento era destinado especificamente para o sustento dos levitas. Números 18:21/24

Nos escritos do Novo Testamento, o dizimo é mencionado explicitamente apenas nos Evangelhos e na epístola aos Hebreus, sempre em relação aos judeus.

No início da igreja ….. Não havia templos nem ministério a tempo integral (muitos líderes eram “fazedores de tendas”, como Paulo). A maior carência estava na área social ou beneficente.

Ao longo dos séculos, ele (o dízimo) tornou-se obrigatório.Isto é verdade, mas tornou-se obrigatório só em certas igrejas que se desviaram da genuína mensagem do Evangelho, em especial as igrejas de influência americana ou brasileira, pois há outras que não aceitam a obrigatoriedade do dízimo, entre elas a Igreja Católica, que neste assunto tem mostrado uma maior seriedade.

O autor do artigo apresenta em seguida, vários argumentos para provar a necessidade da obrigatoriedade do dízimo nos nossos dias.

Mas terão as igrejas autoridade para recuperar um ou mais preceitos da Velha Lei que foi abolida por Cristo? Certamente que não foi uma decisão de toda a Igreja Cristã, e possivelmente, nem uma decisão democrática de cada Igreja isoladamente, aprovada em assembleia de Igreja, mas simples decisão de alguns dos seus dirigentes, movidos pela sua ambição pessoal.

Não tenho dúvidas de que em casos excepcionais, as igrejas poderão pedir que os crentes aumentem os seus donativos, mas não vejo base bíblica para que possam acrescentar alguma coisa aos mandamentos que Cristo nos deixou.

Como já afirmei, duma maneira geral concordo com a apresentação do Pastor Alderi Souza de Matos, mas não com a sua conclusão, nem quando afirma que: A questão do dízimo é tão difícil para muitos cristãos, porque toca numa parte sensível da sua vida – o bolso. Esta é mais uma das muitas frases feitas, que já ouvi muitas vezes para pressionar os crentes a contribuir. Afinal, quem lucra com a lei do dízimo? Para onde vai a maior parte das verbas arrecadadas? Não é para o bolso desses pastores?

Eu sou dos que consideram excessivo entregar 10% às igrejas, quando em alguns países há pessoas a morrer à fome. Já me tem acontecido estar indeciso entre dar às igrejas ou à ONG “Médicos sem fronteiras” ou outras organizações no género e penso que os donativos são mais bem entregues a essas ONGs se forem sérias.

No Velho Testamento estavam numa sociedade cívico religiosa e o dízimo era praticamente o seu “imposto único”, para sustento dos levitas, como afirma Alderi de Souza de Matos, (a) embora em certos casos houvesse outros impostos, como no caso dos direitos alfandegários cobrados pelos romanos no tempo de Jesus.

Nós pagamos muito mais impostos, mas também recebemos mais benefícios do nosso Governo. Não é fácil comparar culturas tão diferentes, mas estabelecendo um paralelo de ideias, mesmo que aproximado, com a nossa realidade, se considerarmos que o total de todos os dízimos que os judeus pagavam ao Templo de Jerusalém, corresponde ao nosso Orçamento Geral do Estado, podemos ver que (b) esse valor dos 10% é muito superior ao que recebe a grande maioria dos Ministérios do nosso Governo.

Para terminar o comentário a este artigo do Pastor Alderi Souza de Matos, quero dizer que discordo da interpretação que dá a Marcos 12:41/44 que aliás é a interpretação tradicional geralmente utilizada pelos pastores para incentivar a contribuição, ignorando o contexto dessa parábola. Sobre o assunto, aconselho a leitura do meu artigo Oferta da viúva pobre (CC)

2.3Artigo Dar a Deus o que é de Deus… de autoria da Pastora Eva Michel

Como a própria Pastora Eva Michel afirma, não gosta de falar de dinheiro, e aqueles que a conhecem, bem sabem que esta minha antiga Professora de teologia, que é Pastora mas, tal como Paulo, tem uma profissão secular, não está habituada a abordar estes assuntos. Mas levanta importantes questões sobre o título que deu ao seu artigo, acabando muito sabiamente, por não definir concretamente o que é de Deus, nem como podemos dar a Deus, pois isso fica à reflexão dos leitores no desenvolvimento das valiosas pistas de reflexão que nos deixou, nomeadamente os graves problemas sociais, quer a nível mundial dos milhões sem água potável, quer até a nível das nossas igrejas, com a grave crise económica que atravessamos.

Talvez eu tenha sido mais sensível a este problema da água potável, pois durante muitos anos fui o engenheiro responsável pelo abastecimento de água ao Concelho da Marinha Grande onde moro e que hoje está praticamente abastecido a 100%, mas o mesmo não acontece em todos os Concelhos de Portugal e em muitos outros países, por vezes nem água imprópria têm, para poderem sobreviver.

Parece que os antigos se preocupavam mais com estes problemas que os crentes da actualidade. Algumas igrejas, fruto da Missão Metodista de Cambine, em Moçambique, começaram com um furo de captação de água, que serviu de pólo de atracção das populações.

A leitura deste artigo suscitou-me ainda outras questões: Dar a Deus é entregar às igrejas? A responsabilidade de quem dá a Deus, termina com a entrega da sua oferta? Ou a responsabilidade continua até saber qual o destino final da sua oferta?

Poderia subscrever este artigo desta minha antiga Professora de teologia quase a 100%, excepto a referência que faz à “Oferta da viúva pobre”, pelos motivos que já referi.

2.4Artigo A Igreja e o dinheiro: Fundamentos bíblicos do Pastor Manuel Pedro Cardoso

O Pastor Cardoso, meu antigo Professor de teologia, e um dos principais colaboradores desta página na internet, já há muito nos habituou à seriedade dos seus artigos, correcto posicionamento teológico e abertura a outras posições, mesmo que divergentes, desde que bem fundamentadas.

Numa época em que muitos procuram apresentar a lei do dízimo com base em passagens do Velho Testamento, é importante meditar no que o Pastor Cardoso considera as bases para uma séria abordagem do assunto e a que voltarei a referia-me nas conclusões deste meu artigo.

2.5 – Artigo Mordomia – Um desafio para as igrejas do sul da Europa de autoria de Joel Cortés, Presidente da Comissão Executiva da Igreja Evangélica Espanhola.

Trata-se dum importante artigo que penso complementar o artigo do Pastor Cardoso que apresenta as bases de reflexão enquanto o artigo de Joel Cortés aborda os seus aspectos práticos mais em pormenor, com base na sua valiosa experiência a que mais adiante nos iremos referir.

Como afirma Joel Cortés, as igrejas minoritárias surgiram a cresceram num contexto hostil. Penso que este facto levou a que se tornassem igrejas um tanto isoladas da comunidade envolvente, mentalidade que tem de ser ultrapassada com um melhor aproveitamento dos seus “espaços”. O conceito de igrejas como um “espaço fechado” e isolado do exterior, tem mais a ver com um conceito veterotestamentário do “lugar santo” e “lugar santíssimo”, que não tem bom fundamento neotestamentário. Santos devem ser os crentes, e a igreja (edifício) deve ser um “espaço aberto”, um “edifício público” onde todos possam entrar sem se sentirem estranhos, um “espaço” que esteja ao serviço da comunidade com outras funções além da actividade religiosa. Já foram efectuadas algumas iniciativas nesse sentido, com bons resultados. (Estou a lembrar-me da Igreja do Bebedouro). O importante é haver um certo bom senso para que se mantenha o ambiente salutar duma igreja dos nossos dias, sem os exageros dos antigos. Se, como diz o Pastor Cardoso, a Igreja se deve guiar pelo pensamento e exemplo de Cristo, não podemos ignorar que o nosso Mestre não foi homem de igreja ou homem de sinagoga, muito menos do Templo de Jerusalém, que era o lugar dos seus inimigos, e os seus principais ensinos, foram divulgados nos campos, nas praias, nos montes, lugares que hoje diríamos, em ambiente secular.

O apoio económico das igrejas do norte da Europa, foi muito valioso para as igrejas protestantes do Sul que certamente ficaram para sempre gratas por essa ajuda, mas não podemos ignorar alguns dos aspectos negativos dessa ajuda económica. Talvez essa ajuda se tenha mantido durante demasiado tempo e não terminou na altura mais indicada, pois acabou por criar uma mentalidade de dependência económica e um certo alheamento dos problemas económicos, dando origem a que os seus pastores no presente não saibam bem como abordar o problema.

3.1 – O dízimo no nosso contexto histórico e cultural

Todos sentimos que estamos numa época de grandes mudanças, talvez estejamos no virar do século. Não me refiro ao tempo cronológico, mas a uma mudança do ambiente em que vivemos, e assim, penso que agora é que estamos entrando no século XXI. É natural que terminem as ajudas financeiras ao protestantismo do sul da Europa, pois a divisão entre países ricos e pobres está mudando rapidamente. Assistimos há poucos dias à reunião dos G20 em Londres em que vimos alguns novos participantes que no passado eram países pobres, e outros que ainda fazem parte do grupo dos países ricos e se comportam como tal, continuam a falar como se fossem os dirigentes do mundo, embora já estejam num declínio irreversível, talvez até numa falência económica e sem possibilidade de pagar as suas dívidas.

Mudou o mundo em que vivemos. Temos melhores meios de comunicação e de transporte, pelo que já não faz sentido haver várias congregações da mesma igreja numa mesma cidade, salvo o caso de Lisboa ou Porto ou se as diferentes congregações forem fruto de insuperáveis diferenças teológicas ou culturais, como por vezes acontece em congregações da mesma igreja, pelo que nos parece pertinente a sugestão de Joel Cortés, de juntar, sempre que possível, várias congregações duma mesma cidade, atendendo à maior facilidade com que os crentes se deslocam utilizando os seus meios de transporte ou os transportes públicos. O assunto até faz lembrar o que acontece com a redução do número de escolas primárias nos meios rurais.

A época dos grandes ajuntamentos, para ouvir a pregação dum orador que sobe ao alto do púlpito, que no passado era praticamente a única forma de transmissão da mensagem do Evangelho a grandes grupos de pessoas, já foi ultrapassada pela imprensa que tornou o custo dos livros acessível a todos, pelos outros meios de comunicação, nomeadamente a rádio, a TV, e no presente pela internet que já é uma realidade em grande parte das famílias portuguesas. Nos nossos dias praticamente todos sabem ler, têm possibilidade de ter uma bíblia a preço acessível e temos estes outros meios mais eficientes para divulgar a mensagem cristã, que não estão a ser devidamente utilizados, como alerta o Pastor Cardoso. Talvez ele próprio se irá admirar do que vou dizer, mas o Pastor Cardoso é dos principais colaboradores da minha página na internet, pois 14 % artigos que temos actualmente, são de sua autoria. Nesta altura o aparelho de estatísticas do servidor de internet está avariado, mas antes desta avaria registava mais de mil visitantes por dia, tendo alcançado os dois mil em certas épocas do ano, pelo que, considerando só o valor mais baixo e admitindo que cada visitante só lê um artigo, podemos afirmar que em média, cerca de 140 visitantes lê pelo menos um artigo do Pastor Cardoso por dia.

Penso que a comunicação do Evangelho nos grandes ajuntamentos, apela mais à emoção e menos à reflexão. Certo tipo de crentes, entre os quais me incluo, prefere ler numa revista ou na internet, a assistir pessoalmente ou na TV, pois na leitura duma mensagem podemos voltar atrás, esmiuçar cada afirmação, e não somos pressionados pela emoção, que também faz parte do Evangelho, mas se for em exagero bloqueia o raciocínio.

A divulgação de opiniões sobre assuntos que mobilizem a opinião pública através da internet é eficiente e de baixo custo. Claro que para captar a atenção do público, terão de ser abordados assuntos que mobilizem a opinião pública, não poderão ser somente os tradicionais artigos sobre a paz ou o amor. Afinal, qual a religião dos nossos dias que não diz que Deus é amor?

Não basta falar no amor de Deus e explorar os mais ingénuos que geralmente são os mais pobres. O que o nosso mundo necessita urgentemente é de igrejas que não só falem no amor de Deus, mas também o demonstrem pelas suas obras.

Os problemas económicos, também não são exclusivos da Igreja e dos pastores. Têm de ser ponderados num contexto mais vasto da época em que vivemos, em que muitas profissões estão desaparecendo ou adquirindo novas funções, que obrigam a que qualquer profissional esteja em permanente actualização. Não sei quanto as igrejas do Protestantismo Histórico têm investido nos últimos vinte anos, na formação e actualização dos seus antigos pastores.

Se Igreja é onde dois ou três se reunirem em nome de Jesus, talvez a crise não seja propriamente da Igreja, mas da forma de ser Igreja adoptada pelas igrejas dos nossos dias, com um Pastor que é o dirigente, e um grupo de membros que se limita a assistir passivamente. É assim que tem acontecido através dos tempos e agora a maior parte das congregações não consegue sobreviver se não tiver Pastor. Se a falta de pastores obrigar a mudar esta mentalidade, darei graças a Deus pela crise da falta de pastores. Aliás, na Igreja Católica há o mesmo problema e tenho notado que há cada vez menos católicos praticantes mas melhores católicos, mais esclarecidos e com mais maturidade.

A maior parte dos crentes das igrejas do protestantismo histórico em Portugal, vive alheia aos problemas económicos das suas igrejas e é urgente que tal assunto seja amplamente debatido em escolas dominicais participativas para adultos, ou reuniões tipo “mesa redonda” onde todos possam e devam intervir, ou de preferência por contactos pela internet, de que sou um entusiasta, pois na internet não há limite de “espaço”, cada um dá o desenvolvimento que entender, nem há possibilidade de sermos interrompidos ou de nos ser cortada a palavra, nem há tempo limite para responder e podemos demorar o tempo que for necessário para estudar, orar e meditar no assunto calmamente em casa, sem pressões psicológicas do número de pessoas que defende determinada posição teológica, além de ser possível “juntar” todos os membros de determinada igreja, sem que tenham de se deslocar a determinado local, desde que tenham a sua ligação à internet, ou de algum amigo ou familiar.

3.2 – Problema económico – Duas atitudes opostas

Actualmente, os problemas financeiros que já se sentiam nas igrejas, têm-se agravado pela crise económica que tem afectado o nosso país e todos procuram uma solução.

Vejo que em Portugal, assim como já aconteceu no Brasil, há uma certa pressão para que se adoptem os mesmos métodos da grande maioria das igrejas evangélicas para a resolução dos problemas económicos. Refiro-me a colocar em vigor a lei veterotestamentária da obrigatoriedade do dízimo.

Não digo que não dê bons resultados contabilísticos, mas nem tudo que resulta sob o aspecto económico tem o apoio do Senhor. Não podemos olhar para os resultados económicos de certas igrejas que exploram os seus crentes e dizer que tais resultados são a resposta do Senhor, pois poderão pelo contrário, ser a resposta de Satanás.

Essa tendência é para a utilização duma “ginástica hermenêutica” mais que duvidosa para colocar um preceito da Velha Lei em vigor nos nossos dias, com argumentos vulgarmente aceites pela maioria das igrejas evangélicas, que são fruto da cultura pragmática e materialista dos EUA, a mesma cultura que deu origem à actual crise quase mundial, que não é só financeira, mas afecta também outros valores, incluindo a teologia. Não podemos aceitar essa mentalidade que coloca os objectivos económicos em primeiro lugar e está pronta a sacrificar os valores do Evangelho, mesmo os que são inegociáveis, como a abolição total e definitiva da Velha Lei de Moisés. Parece que a maior parte das igrejas evangélicas, na América e no Brasil, aceitaram o desafio de Satanás. “Posso dar-te todo este poder e toda esta grandeza, porque tudo isto me foi entregue a mim e eu dou-o a quem eu quiser. Tudo será teu, se me adorares.” Lucas 4:5/8

Não encontrei nenhuma referência ao dízimo nas Institutas de Calvino e duvido que Lutero, que reagiu à exploração da crendice popular, alguma vez se tenha referido ao dízimo neotestamentário, como forma de “rentabilizar” a Igreja, doutrina que tem contaminado igrejas evangélicas em todo o mundo, principalmente as que estão nas zonas mais pobres do Brasil, pois os mais pobres geralmente são os menos cultos e mais vulneráveis a este tipo de exploração.

Mas há outra atitude possível perante a crise nas nossas igrejas. Não podemos esquecer de que, como diz o Pastor Cardoso, citando I Coríntios 12:27 a Igreja é o Corpo de Cristo e o seu modo de pensar e agir têm de ser determinados pelo modo de pensar e agir do Senhor, conforme nos é revelado nas Escrituras. Falar da atitude que a Igreja ou os cristãos individualmente devem ter em relação ao dinheiro é falar da atitude que Cristo tem nos Evangelhos em relação ao mesmo assunto, porque ser Igreja de Cristo é ser o povo que segue a Cristo.

Como vimos, o Pastor Cardoso cita a passagem do capítulo 10 de João em que o crente é comparado à ovelha. Mas penso que a ovelha do Senhor tem uma característica importante. É que ela conhece o Bom Pastor e não se deixa enganar facilmente.

Contaram-me que certo dia, um irmão do Brasil, também colaborador desta nossa página, enquanto conduzia o seu carro a caminho do trabalho, falando da exploração do crente na sua igreja, afirmou à sua esposa: Já não sou ovelha do Senhor… agora sinto-me como ovelha do meu pastor e o meu trabalho é dar lã e estar calado.

Como afirma o nosso antigo Professor de teologia, o leitor da Bíblia não tem dificuldade em perceber que estava certa a Teologia da Libertação quando falava da “opção de Cristo pelos pobres” e da consequente necessidade de que a Igreja não seja apenas uma Igreja com os pobres ou para os pobres, mas de ser a Igreja pobre e dos pobres.

Penso que foi essa a opção de João Batista, antes mesmo do ministério de Cristo segundo afirmo no meu artigo João Batista (CC). Ele não necessitava de igreja (edifício), nem de grupos de louvor ou grandes corais, nem fazia curas nem milagres, mas o povo vinha em multidão para o ouvir, pois as ovelhas do Senhor, bem sentem a Sua Voz quando a genuína mensagem é apresentada.

João Batista nada pedia para si, mas exortava os seus seguidores a partilhar dos seus bens entre si. Quem tiver duas túnicas…

No entanto, quanto ao dízimo, nem todas as igrejas se desviaram do verdadeiro Evangelho. Posso citar o caso da Igreja Católica, que neste assunto tem uma posição mais séria, assim como algumas poucas igrejas evangélicas, bem como as igrejas do protestantismo histórico na Europa, que duma maneira geral se mantêm fiéis ao Evangelho e onde gostaria de continuar a incluir as nossas igrejas Presbiteriana e Metodista.

4 – Conclusão

Para terminar estes comentários à leitura do último número da revista “Portugal evangélico”, devo dizer que:

1) Concordo e apoio a decisão de se falar em mordomia incluindo e contribuição monetária. Não é de admirar que essa contribuição seja fraca nas igrejas do protestantismo histórico, pois é assunto que tem sido ignorado e muitos dos seus membros desconhecem os graves problemas económicos das suas igrejas.

2) Um assunto desta importância, que pode afectar as bases da mensagem do Mestre, terá de ser debatido por toda a igreja. Já não é tolerável nos nossos dias que a “igreja docente” ou um grupo de pastores decida o que devem “ensinar” aos leigos, ignorando a interpretação do povo de Deus e a Tradição Reformada. Nem o termo “igreja docente”, nem o que tal significa, utilizando outras expressões, tem lugar na teologia reformada, muito menos nos nossos dias.

3) A opinião dos leigos não pode ser vista como alguma “coisa” que pode ser moldável segundo uma estratégia pré-definida.

4) É lícito e desejável incentivar a contribuição, mas nem todos os meios para incentivar a contribuição financeira são aceitáveis, pois alguns ultrapassam a “fronteira” entre cristianismo e judaísmo. Há doutrinas do cristianismo que são inegociáveis.

5) Quando os judaizantes tentaram colocar em vigor a lei da circuncisão, segundo vemos nos capítulos 3 e 5 de Gálatas, Paulo reagiu afirmando (tradução da Boa Nova): Ó gálatas sem juízo! Quem foi que vos enganou? Eu tinha-vos feito ver Jesus Cristo crucificado. Só quero que me digam isto: vocês receberam o Espírito de Deus por terem cumprido a lei, ou por terem aceitado a fé?…… Cristo libertou-nos, para sermos realmente livres. Portanto, permaneçam firmes e não voltem mais a ser escravos. Eu, Paulo, digo-vos que se recebem a circuncisão, Cristo não vos servirá de nada.

Será que Paulo seria mais tolerante, quando o Evangelho é deturpado para rentabilizar a Igreja? Quando os objectivos económicos são colocados em primeiro lugar? Quando as exigências da igreja deixam de estar ao alcance de muitas famílias em dificuldades económicas?

Portanto, defendo por um lado o reforço das contribuições para as nossas igrejas do Protestantismo Histórico, e por outro, uma defesa intransigente do Evangelho da Graça com rejeição da Velha Lei de Moisés, nomeadamente a obrigatoriedade do dízimo.

Camilo – Marinha Grande, Portugal

Maio de 2009

(a). Joaquim Jeremias refere-se ao “imposto da didracma” Êxodo 30:13, Mateus 17:24/27

(b) Segundo informação publicada no Diário da República 252 de 31 de Dezembro de 2008, o orçamento do nosso país paira o corrente ano de 2009 foi o seguinte, em milhões de euros http://www.portugal.gov.pt/NR/rdonlyres/117E8ABA-36AF-4E08-9D9D-29F8A652058B/0/Lei_OE2009.pdf (páginas 9300-84/87)

Ano económico de 2009

Encargos Gerais do Estado                   3 164     milhões de euros

Presidência do Conselho de Ministros          208

Negócios Estrangeiros                         337

Finanças e Administração Pública          127 640

Defesa Nacional                             2 072

Administração Interna                       1 765

Justiça                                    1 297

Ambiente do Ordenamento do Território         253

Economia e Inovação                           150

Agricultura                                   486

Obras Públicas Transportes e Comunicações     209

Trabalho e Solidariedade Social             6 939

Saúde                                       8 261

Educação                                    6 652

Ciência Tecnologia e Ensino Superior        1 736

Cultura                                       158

Total              161 327

Não é fácil estabelecer uma comparação da nossa realidade com os impostos do Velho Testamento, pois além do dízimo, segundo Joaquim Jeremias informa no seu livro “Jerusalém no tempo de Jesus”, eles pagavam a didracma e também o cumprimento dos seus votos. No nosso caso, também os nossos impostos não são uma % fixa. Duma maneira geral, os ricos pagam uma % mais elevada, o que me parece mais justo que o sistema bíblico veterotestamentário dos 10% para todos. Mas vamos admitir que o Orçamento Geral do Estado, que se baseia nos nossos impostos, representa 40% do que todos os trabalhadores ganharam em Portugal.

Se 40% do nosso rendimento colectável é de 161 327 milhões de euros, 10% que é o valor que daria se todos os portugueses fossem dizimistas, seria o valor de 161 327 / 0.4 x 0.1 = 40 332 milhões de euros, valor só excedido pela verba destinada ao Ministério das Finanças e Administração Pública.

Penso que seria um escândalo as igrejas receberem 4.9 vezes mais que o Ministério da Saúde, ou 6 vezes mais que o Ministério da Educação, ou 23 vezes mais que o Ministério da Ciência e Tecnologia. Não sei se alguma vez, nas épocas do maior obscurantismo medieval, a Igreja Católica terá arrecadado verbas tão elevadas. Mas foi devido a problemas semelhantes, em que o povo era sobrecarregado de impostos, que nasceu a Reforma Protestante. Certamente que esta não foi a única causa, mas foi certamente das principais. Será que “está na hora” duma nova reforma, desta vez das igrejas evangélicas?

Bem sei que o caso vulgar do Protestantismo português é o de pequenas igrejas, com poucos crentes que tentam manter um Pastor a tempo integral, resultado das muitas divisões do protestantismo. Mesmo assim, admito que as igrejas possam pedir um esforço de contribuição aos seus crentes. Mas este pormenor vem mostrar que, se houvesse uma Lei do dízimo, seria escandaloso, neste contexto, no Orçamento para o nosso país, aparecer um “Ministério da Religião” com uma verba de 40 332 milhões de euros.

Não tenho dúvidas em afirmar que o valor de 10% exigido por certas igrejas é demasiado, além de não ter base bíblica neotestamentária.

NOTA: Quaisquer comentários a este artigo, para eventual publicação, caso contenham argumentos pró ou contra a obrigatoriedade do dízimo nos nossos dias, que ainda não tenham sido divulgados nos vários artigos desta página, poderão ser enviados para o autor deste artigo, com a identificação do remetente, incluindo nome, idade, igreja, cargo que desempenha nessa igreja, preparação cultural e teológica e outras informações que nos queira enviar, salvo se já for colaborador da Estudos bíblicos sem fronteiras teológicas.

COMENTÁRIOS RECEBIDOS

Osni de Figueiredo. Pastor da Assembleia de Deus de Belenzinho, Distrito de Belém, no Estado de São Paulo – Brasil

Prezado irmão Camilo.

Cada vez mais me orgulho de seu desempenho em defesa da sadia interpretação bíblica.

Muito valoroso é este debate que vem desmascarar velhos engodos e argumentos decorados de afirmações falaciosas.

Oxalá a luz do temor de Deus e da investigação bíblica ilumine os ingénuos e cesse a loucura dos exploradores que se fartam do sangue destes.

Esta causa é disputada em todo o mundo, porém no Brasil é algo que chega a ser cruel, como ousou comentar uma vez um certo pastor daqui “Estar desempregado não é desculpa para ser infiel ao Senhor (nos dízimos), não esta comendo? Então tem dízimo”.

Quando sinto a tristeza da perseguição por defender esta bandeira, me lembro das agruras que deve ter passado o reformador Ulrich Zwinglio que também defendia esta entre outras e me sinto um pouco herói.

Paz

Osni de Figueiredo – Belém, São Paulo, Brasil

Maio de 2009

Alceu Braga alceubraga@yahoo.com.br Paraná – Brasil. Crente indenominacional de 51 anos de idade e 8 anos de experiência nas igrejas. Não é membro de nenhuma igreja evangélica, embora pertença à Igreja do Senhor. Exerce a profissão de vendedor autônomo.

Caro irmão Camilo,

Enquanto lia este seu artigo, procurava vislumbrar a posição de seus autores e já vinha à mente, meu entendimento que julgo estar se solidificando com o auxílio de sérios estudos que encontro na “Estudos bíblicos sem fronteiras teológicas”, tendo estes vindo de encontro, de maneira inequívoca, aos seus fantásticos e felizes comentários a respeito dos artigos relatados.

Querido irmão Camilo, assim o chamo, com respeito e forma de expressar carinhosamente meus agradecimentos, a supor ter ao meu lado, um amigo pronto a ouvir e entender, mesmo que surjam divergências em alguns aspectos; e assim, surgindo, quero participá-los.

Camilo, não tenho formação teológica mas imensa vontade em iniciar algum curso na área, poderia comentar alguma coisa? Ando temeroso quanto às tendências pois a única experiência foi um ano de curso fornecido por uma igreja, onde se questionasse algo (contrário ao que ensinado) era coisa do diabo. Isto aborrece!

Grande abraço,

Alceu – São José dos Pinhais, Paraná – Brasil

Maio de 2009.

Caro irmão Alceu

O incentivo que lhe deixo é o estudo da teologia, o que é muito mais importante do que ter um curso de teologia, pois o valor do diploma dum curso depende muito da escola que o passou. Não sou brasileiro, mas sei que a maior parte desses “cursos” evangélicos não são reconhecidos pelo Ministério da Educação do Brasil.

Não podemos confundir a séria meditação e investigação teológica com a simples mentalização doutrinária, em que não há oportunidade para pensar, e o “bom aluno” é o que repete tudo que o professor lhe “ensinou”, como aconteceu com o caso que refere, em que nada podia questionar. Há Seminários que só aceitam alunos propostos por um pastor, o que já indica o tipo de aluno disposto a tudo aceitar sem questionar, e preferem os alunos de menor preparação cultural, pois o futuro pastor que não tenha outra profissão, será certamente o mais fiel à sua igreja.

Como o irmão já tem certa experiência, é pessoa casada e com filhos, certamente que está a pensar num curso por extensão, através da internet. Eu não conheço os cursos disponíveis no Brasil. É fácil localizá-los pelos aparelhos de busca da internet, mas nada posso dizer quanto ao seu valor.

Eu nunca terminei nenhum curso de teologia, pois nunca ambicionei ser pastor, mas o que fiz, foi o seguinte: Primeiro tentei estudar hermenêutica, antes mesmo de iniciar o estudo da teologia, e depois tirei algumas cadeiras num Instituto Bíblico fundamentalista e repeti mais ou menos as mesmas cadeiras no Seminário ligado à Igreja Presbiteriana de Portugal, que é mais liberal, para ver as diferenças. Tudo em cursos por extensão, em que o aluno enviava os seus trabalhos pelos correios ou pela internet. Julgo que essa seria uma boa opção para o irmão não estar na posição de simples receptor de informação sem a questionar e não ser influenciado pelos professores sem a sua crítica pessoal. Infelizmente, esse curso por extensão da Igreja Presbiteriana de Portugal já não funciona, o que lamento, pois pela internet certamente que teria alguns alunos interessados. Mas certamente que haverá outras hipóteses no Brasil, de Seminários de teologia ligados a igrejas sérias.

Que o Senhor o oriente nessa busca.

Com um abraço fraternal do Camilo

David Oliveira Goiânia Brasil

Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima. Hebreus 10:25

Há muito mais diferenças que semelhanças entre “congregações” e “instituições religiosas”. “Congregação” tem como principal fundamento perceptível, o ajuntar-se para as estimulações recíprocas, sem a fixação preocupativa do local físico, pois as portas residenciais eram francamente abertas para o “ajuntamento”, a que chamavam “Eklesia”. Essa preocupação é o âmago de todas as questões do chamado meio evangélico atual. As instituições religiosas demandam um aparato organizacional e faz com que o lugar do congregar-se seja muito custoso e complexo.

Sempre digo que a “Igreja” atual, aquela “fixada” muito mais no local físico, (apoio logístico da congregação cristã) não precisa de “dízimos”, mas de “dinheiro” para a sua sustentação. Esse “dinheiro-dízimo” não tem nenhuma sustentação bíblica, pois não se compara com o conceito bíblico de dízimo.

David www.barramento@yahoo.com.br

Maio de 2009

Obrigado caro David

  1. O teu comentário suscita outra questão muito importante: O que é, ou o que deve ser um igreja cristã? Fizeste lembrar-me de afirmações semelhantes que já tenho ouvido não só aqui em Portugal, como em muitos outros locais bem distantes. Disse-me um Pastor indiano na Índia, que a Eklésia começou nos lares dos crentes, em pequenos ajuntamentos, e depois das grandes organizações religiosas, perderem a sua credibilidade e se desfizerem em escândalos e contendas, a Eklésia voltará para os lares, quando Cristo voltar.

Parece que esse tal pensamento é como o DNA ou ADN do cristão que não nos pode deixar felizes com a situação actual das igrejas e nos faz desejar alguma coisa diferente que não sabemos bem o que seja, mas sabemos que já foi uma realidade da qual nos afastamos.

Talvez o David, ou esse Pastor indiano que também é leitor da nossa página, ou algum dos outros que sentem o mesmo problema, queira desenvolver o assunto.

Camilo

1 Comentário

  1. Para ver que ensinavam os primeiros cristãos da igreja primitiva sobre os dízimos visita… http://www.aigrejaprimitiva.com/dicionario/DIZIMOS.html


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